Infectologista da USP trabalha há 12 anos no desenvolvimento de uma vacina para a dengue

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17 de Abril de 2010 – 21h48

mosquito20da20dengueBenedito Lopes da Fonseca trabalha com a doença há 15 anos, até agora a vacina se mostrou eficaz apenas para dois tipos de vírus

Há 15 anos o médico infectologista Benedito Lopes da Fonseca trabalha com dengue na Faculdade de Medicina da USP de Ribeirão Preto, onde há 12 vem trabalhando no desenvolvimento de uma vacina para a doença. Até agora a vacina se mostrou eficaz apenas para dois tipos de vírus, a dengue 3 e a dengue 4.

Mas diz que estudos feitos pelo instituto Pasteur em conjunto com um laboratório francês promete uma vacina para 2013.  Em entrevista ao repórter Hélio Pelissari para o Classe A, Fonseca defende a vacina é a única forma de erradicar a doença no mundo e diz qeu a dengue tem um forte aspecto sócioeconômico.

Hélio Pelissari – O senhor está há quantos anos na Faculdade de Medicina, no departamento de virologia?
Benedito Antonio Lopes Fonseca – Há 15 anos, quase 16. Vai fazer 16 em maio.

Hélio – O senhor é formado na USP de Ribeirão Preto?
Benedito – Não, eu sou formado pela USP São Paulo.

Hélio – Dava aula lá antes de vir para Ribeirão?
Benedito – Não, eu terminei minha residência lá em infectologia e no ano seguinte fui fazer mestrado e doutorado nos Estados Unidos.

Hélio – Em que época?
Benedito – Eu fiquei de 1987 a 1994 e aí fiz o mestrado e o doutorado na universidade de Yale. Quando eu estava lá a USP montou um programa de captação de recursos e eu fui selecionado para voltar. E vim direto para Ribeirão. A USP selecionava algumas pessoas e os currículos eram mandados para algumas escolas que talvez tivessem interesse. A minha foi para a própria Pinheiros, para a Escola de Saúde Pública de São Paulo e Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e acabei vindo para cá por opção pessoal e familiar e também pela qualidade da escola que eu conhecia por colegas que estavam fazendo o pós-doutorado na Yale eram de Ribeirão. Não me arrependo nenhum minuto.

Hélio – Desde de que o senhor chegou já começou a pesquisar a dengue?
Benedito – Já. Eu tinha como linha de pesquisa já no meu doutorado. Eu já tinha o estudo da dengue mais relacionado à vacina. Hoje, no laboratório, a gente faz tudo de dengue. Desde biologia molecular, diagnóstico, aspecto clínico e até mesmo tentativa de produção de vacina, esta é a coisa que vai mais devagar de tudo.

Hélio – Como estão as pesquisas relacionadas com a vacina?
Benedito – Nós temos o que nós chamamos de candidatos vacinais. Nós temos preparados para os quatro sorotipos, só que em dois deles, em animais, funcionam bem, acima de 80% dos animais são protegidos.

Hélio – Quais vírus?
Benedito – Estes são os vírus dengue 3 e dengue 4. Na verdade o 4 nós nem temos no Brasil. Estes dois foram os que deram certo. Eu tentei os quatro tipos ao mesmo tempo. Só que os tipos 1 e o 2 a gente até conseguiu o que chamamos de possível vacina, de candidato vacinal. Só que eles não funcionam. Os quatro são idênticos, não mudam os genes que são específicos de cada vírus. Mas por que um funciona e o outro não tenho a menor ideia. O três e o quatro funcionam em animais. Porque a gente não pode testar nenhuma vacina contra a dengue que não seja tetravalente.

Hélio – O que é isto?
Benedito – Nós temos quatro tipos de sorotipos de dengue. O um, dois, três e quatro. Existe uma hipótese que diz o seguinte: se eu for infectado por um deles, para este eu estou protegido a vida inteira, nunca mais eu vou ter aquela dengue. Agora se eu for infectado por um segundo, o fato de eu ter sido infectado por um primeiro pode, na verdade, piorar a infecção pelo segundo, que é o risco da hemorrágica. Então eu não posso fazer uma vacina que seja contra um tipo de vírus só. Porque eu estou imunizando a pessoa para que em uma segunda infecção ela tenha dengue hemorrágica. Então não dá. Eu tenho que ter a certeza de que ela vai imunizar contra os quatro, por isso ela precisa ser tetravalente. Então não dá para começar a testar em camundongo, porque eu só tenho teste de cada um deles. Na forma monovalente. Eu preciso que todas funcionem bem individualmente para que elas possam ser testadas juntas.
Hélio – Vocês agora estão trabalhando para descobrir com os vírus um e dois que a vacina não funciona?
Benedito – Nós estamos investigando o que está diferente e pode estar ocorrendo de errado com este para que a gente acerte e comece a funcionar iguais aos outros. Quando todos eles estiverem funcionando iguais, aí a gente pode juntar os quatro e fazer um teste com os quatro.

Hélio – Há quanto tempo vocês estão trabalhando nesta vacina?
Benedito – Nesta vacina pelo menos uns 12 anos.

Hélio – Vocês não têm previsão de quanto tempo mais vai ser necessário?
Benedito – Não temos. Por exemplo: tem várias companhias farmacêuticas que estão tentando produzir a vacina. Tem a Sanofi Pasteur, tem uma companhia americana, uma companhia haitiana, que chama Havaí Bayotec. Eles estão tentando fazer vacina para dengue. E eles também não têm uma data para liberar esta vacina no mercado. Eles, por serem uma companhia farmacêutica, possuem mais recursos do que nós, estão mais adiantados. Pode ser que tenha uma vacina liberada para humanos em 2013. Isto não significa que no Brasil vai ter esta vacina em 2013.

Hélio – E quem está produzindo esta vacina?
Benedito – Esta vacina que tem a possibilidade é a Sanofi Pasteur.

Hélio – Ela é ligada ao instituto Pasteur na França?
Benedito – Na verdade o Instituto Pasteur tem participação, é uma junção da Sanofi, que era uma companhia particular com o Instituto Pasteur. Funciona como uma Joint Venture, uma associação.
Hélio – Então existe a possibilidade real de termos uma vacina contra a dengue em 2013?
Benedito – Existe.

Hélio – A vacina que está sendo desenvolvida aqui na USP tem a participação de outros institutos?
Benedito – Não, esta é só o meu laboratório. Mas no Brasil tem mais um outro laboratório que tem a possibilidade de produzir a vacina contra a dengue com pesquisa brasileira, que é Bio-Manguinhos, no Rio. Eles utilizam técnica um pouco diferente da que eu estou usando, mas têm também o Instituto Butantã, que vai produzir vacina, mas na realidade ele é um sítio produtor. Toda a pesquisa de desenvolvimento da vacina vem do Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos. Foi produzido lá todo o processo, foi feito lá e eles vão transferir o que a gente chama de sementes de vacina para o Instituto Butantã produzir. Esta é uma capacidade que o Instituto tem de produzir as vacinas. Mas a pesquisa não são deles. A pesquisa desta vacina está um pouco mais atrasada.

Hélio – Não há previsão?
Benedito – Na verdade a única que tem previsão e uma previsão meia “chutada”, para 2013, é a da Sanofi Pasteur. As outras estão produzindo, mas não tem uma data que quando vai poder estar no mercado.

Hélio – Vacina é a solução para o problema da dengue?
Benedito – De estrema valia. Por quê? A gente tornaria as pessoas imunes e elas não pegariam a doença. A gente tem o exemplo de um primo da dengue, o vírus da febre amarela. Na verdade só pega febre amarela quem não tomar vacina. Esta é uma situação que a vacina da dengue seria desde que se conseguisse uma cobertura próximo de 100% da população, sem dúvida seria a solução.

Hélio – O senhor acredita que a médio prazo pode acontecer o que aconteceu com a febre amarela, o vírus desaparecer?
Benedito – Se usar a vacina, sem dúvida, se a gente conseguir que uma grande faixa da população seja imune à doença. Não adianta o vírus infectado vir picar a gente porque ele não transmite. E existe uma coisa que se chama imunidade de rebanho. O que acontece se você tem três pessoas imunizadas contra a dengue? O mosquito vem picar, mas ele não vai picar a quarta pessoa que não estaria imunizada. Isto impediria a transmissão para outras pessoas. Como ele precisa picar porque necessita do sangue, ele picando este três não teria necessidade de picar outra pessoa, que possa não estar imunizada.

Hélio – Hoje como o senhor está vendo o problema da dengue. Parece que a população não leva a sério o risco da dengue?
Benedito – Eu acho que a dengue tem um aspecto socioeconômico muito importante. Eu acho que a população leva a sério, isto é experiência pessoal. Nós fizemos um trabalho em um dos bairros onde a gente foi coletar sangue para ver as características dos pacientes com dengue, as pessoas vinham conversar com a gente, as pessoas estavam interessadas até que a gente coletasse sangue deles. E elas estavam interessadas mesmo na doença. Mas existem algumas situações que é difícil controlar.

Fonte: A Cidade.

Data de criação: 20/04/2010
Última atualização: 26/04/2010

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